A cada dia que passa, sinto que a multidão está aprisionada num looping programado para desagregar as pessoas em guetos. Tudo é volátil, tudo é líquido, as amizades se constroem e se desfazem por falta de empatia que dê sentido à solidariedade, à fraternidade, à liberdade e ao amor ao próximo.
Estamos ilhados, como diria Deleuze, ou dispersos em nossas pequenas certezas, que nos fazem encher o peito e dizer o que é certo, justo ou verdadeiro, segundo a nossa egosfera frágil e postiça, como se fôssemos um simulacro do que nos projetaram na infância, de acordo com a vontade dos nossos pais ou dos grupos sociais a que estamos ligados.
Fica fácil aderir aos modismos da indústria da diversão e da dispersão. Basta ligar o rádio para ouvir a programação dos lugares que oferecem comida, bebida e shows para aqueles que têm dinheiro para consumir. A arte, elemento restaurador das almas doloridas pelas dificuldades, é posta de lado. O que importa é o consumo e a falsa ilusão de pertencer a um gueto cada vez mais inflado na vaidade e na futilidade de preencher os instantes com uma solidão coletiva.
Desde que os filósofos e sociólogos pensaram as duas grandes guerras, vem ocorrendo um fenômeno da massificação e da despersonalização dos indivíduos para se criar um ser globalizado, destituído de uma identidade, que atenda aos padrões de consumo da indústria do entretenimento e da glamourização do banal. Vestuário, alimentos, modos de ser e comportamentos são moldados para atender a um padrão de consumo cada vez mais normatizado em grifes que tendem a ser seguidas por quem não precisa ou pode sustentá-las. Um exemplo fácil de mostrar são as academias lotadas de pessoas cultuando os corpos para se mostrarem integrados às vitrines da moda. A alma, o espírito, a essência, como queiram, está se esvaziando para dar lugar ao comportamento de uma sociedade pobre de valores intelectuais e rica em banalidades.
A indústria do esvaziamento do ser está lucrando absurdos e alienando a sociedade dos verdadeiros dilemas do presente. Daí que, as denúncias de pedofilia, corrupção, crimes os mais diversos se diluem no padrão egocêntrico trabalhado para nos afastar da nossa essência. A ilha de Epstein, como está sendo conhecida, se tornou o lugar onde a barbárie contra crianças e adolescentes é sabida por muitos, mas não altera o nosso modelo de sociedade e é ignorado pela maioria. Estamos encarcerados no credo de perdermos nosso lugar no vazio das multidões e seguirmos como zumbis para o abatedouro em vida.
As guerras por posse ou para justificar posições religiosas, baseadas numa ideia de um Deus egoísta e cruel, se tornaram comuns e alguns até torcida e ficam ao lado de quem provoca o caos e o genocídio, porque é feito por países imperiais que sempre mataram e roubaram em nome da ordem. Essa ordem só interessa a eles. Aos povos subjugados ou dizimados restam apenas os escombros e a perda do referencial identitário.
Esse monstro criador de pessoas sem lugar e sem ancestralidade está provocando a reação dos que já perderam tudo e nada mais têm a perder. Indígenas, palestinos, negros, mulheres, idosos ou simplesmente os que dizem não à opressão fazem parte dos grupos de seres descartáveis. Poucos integrantes desses grupos conseguem se inserir no sistema que coloniza as mentes e os corpos. Grande parte deles, no entanto, já aderiu à mentalidade colonial e se tornou carcereiro das almas. Muitas vezes, até de quem está a seu lado, lutando pela liberdade, pela solidariedade e pelo amor tão banalizado em cultos religiosos, atribuídos a um Cristo cada vez mais representante dos líderes que se juntam aos políticos coloniais, distribuindo peçonhas, acobertando o horror e fechando os olhos para o fascismo que se instaurou no mundo representado pela extrema-direita.
Quem leu até aqui, obrigado. Sinto-me estranho. Deslocado neste mundo que reage com desprezo a quem ama; que desqualifica e criminaliza quem luta; e que desfaz as essências para dar lugar as aparências. Estou livre para caminhar sem medo. Estou convicto de que o amor é uma construção difícil, porque antes de ser amor foi paixão, interesse, conquista, aposta, experimento… mesmo assim, tem quem prefira, voluntária ou involuntariamente, cultivar uma mentalidade colonial e aprisionar o outro no esvaziamento do mundo essencial.