Num país sério, Flávio Bolsonaro já teria desabado nas pesquisas. Não seis pontos. Vinte. Talvez mais. A nova pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada na última terça-feira, mostra que o senador caiu seis pontos no segundo turno contra Lula após a divulgação dos áudios envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. No levantamento, Flávio aparece com 41,8%, enquanto Lula chega a 48,9%. A rejeição do senador também subiu e chegou a 52%, superando numericamente a de Lula, que ficou em 50,6%.
O dado é importante não apenas pelo efeito eleitoral imediato, mas pelo que revela sobre a hipocrisia estrutural do bolsonarismo. Durante anos, essa turma vendeu ao país a fantasia de que representava uma cruzada moral contra a corrupção. Transformaram o combate ao PT em religião, em identidade, em senha de pertencimento. Mas bastou a suspeita bater à porta de um Bolsonaro para a indignação seletiva virar silêncio, relativização e ataque à pesquisa.
Os mesmos que pediam prisão antes de denúncia, condenação antes de processo e destruição de reputação antes de prova agora exigem cautela, contexto, perícia, contraditório e ampla defesa. Quando o personagem é do PT, a manchete vira sentença. Quando é da família Bolsonaro, tudo vira perseguição, armação ou manipulação.
A pesquisa Atlas apenas mediu o estrago político. E o estrago, convenhamos, ainda foi pequeno diante da gravidade simbólica do episódio. Segundo a Reuters, o levantamento foi feito depois da publicação de reportagem que apontou uma negociação envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro. A própria reportagem registra que Flávio nega irregularidade e afirma se tratar de patrocínio privado, sem contrapartida. A Atlas ouviu 5.032 pessoas entre 13 e 18 de maio, com margem de erro de um ponto percentual.
Mesmo assim, a reação do eleitorado bolsonarista mostra que a corrupção nunca foi exatamente o problema. O problema era o PT. A régua moral não mede conduta; mede lado político. A indignação não nasce do fato, mas do sobrenome de quem aparece envolvido.
Por isso Flávio não derreteu como deveria. Porque existe uma parcela do país que não vota mais com base em coerência, mas em torcida. Para essa militância, não importa o conteúdo dos áudios, a proximidade com banqueiro investigado ou a contradição entre discurso público e prática privada. Importa apenas preservar o mito, a família e o projeto de poder.
* Alan Kardec (Jornalista)
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