Daniella Marques Cosentino, coordenadora do programa econômico da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), integrou o Conselho de Administração do Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, entre fevereiro de 2024 e 8 de dezembro de 2025. O banco é alvo da Operação Miragem da Polícia Federal, deflagrada em 23 de junho, que investiga suspeitas de gestão temerária, manipulação de demonstrativos contábeis e captação irregular de recursos.
Registros da Junta Comercial de São Paulo mostram que Daniella Marques esteve no Conselho de Administração do Banco Digimais de fevereiro de 2024 até 8 de dezembro de 2025. Seu mandato estava previsto para durar até 20 de junho de 2026, mas o conselho foi extinto antes do prazo. A revelação é de Eduardo Militão, no site Metrópoles.
Como a Fórum antecipou em fevereiro, o nome da economista, braço direito de Paulo Guedes, era tratada pela Faria Lima como principal condição para apoio à candidatura de Flávio, em uma solução idêntica ao que ocorreu em 2018.
Derretendo nas pesquisas após a revelação da irmandade com Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro usou evento da revista Veja – veículo historicamente ligado aos interesses do sistema financeiro transnacional – no último dia 16 de junho para anunciar a entrada de Daniella Marques Consentino em sua campanha logo após anunciar que fará “cortes drásticos” nas despesas.
“De novo, vai ter que sobrar para um governo de direita arrumar a casa, mas nós vamos fazer. A gente tem que criar uma espécie de mecanismo que quando a relação dívida PIB ultrapassar esse determinado patamar, gatilhos automáticos vão ter que ser acionados para cortes drásticos de despesas. Não tem outro caminho“, afirmou, para delírio da Faria Lima.
O discurso alinhado com a Faria Lima deixou Maurício Lima, CEO da Editora Abril, à vontade para ser mais direto, bajulando a “Paulo Guedes de Saias” que estava na plateia com os assessores de Flávio Bolsonaro.
“Eu não vou aguentar, vou ter que fazer essa pergunta, porque ela está ali, está levantando até. Qual vai ser o papel da Daniella Marques, que foi ex-presidente da Caixa, assessora muito próxima ali do Paulo Guedes, também importante na primeira administração do seu pai, do Jair Bolsonaro?”, indagou o executivo da Editora Abril.
Na dobradinha, Flávio tratou a economista como “Dani”, mostrando intimidade, e fazendo o aceno que o sistema financeiro esperava.
“Dani é uma amiga que nós fizemos aí ao longo do governo do presidente Bolsonaro. É uma pessoa que tá se dispondo a estar próximo de nós. Não porque é mulher. É porque ela, para mim, a melhor pessoa que tinha no time do Paulo Guedes, era Dani Marques. Então, tenho certeza que muita coisa que o Paulo Guedes conseguiu implementar, a Dani ajudou a construir e a viabilizar. Então, pessoa que eu respeito demais, que eu confio demais. E está se dispondo a estar perto de nós aqui na campanha e vai me ajudar nessa parte econômica”, anunciou.
Após Flávio destilar elogios à economista, o CEO da Veja mostrou que entendeu o recado, de que Daniella Marques deve assumir o Ministério da Fazenda em um eventual novo governo Bolsonaro. “Com elogios assim já pode ir, né, Dani?”, brincou Maurício Lima.
Por trás do apelido machista colocado pelos banqueiros e investidores – e ecoado por jornalistas mulheres na mídia liberal – está o nome de Daniella Marques Consentino.
Aprendiz de Guedes na iniciativa privada, a economista foi levada como braço direito ao “super” Ministério da Economia e usada pelo governo Bolsonaro para estancar a crise criada por Pedro Guimarães com o escândalo dos assédios sexuais, assumindo a Presidência da Caixa Econômica Federal. No comando do banco estatal, ela atuou ativamente na campanha de Jair Bolsonaro em 2022.
Alçado ao governo após trabalhar com Guedes na iniciativa privada – na Bozano Investimentos -, Daniella chegou a ser retida pela Polícia Legislativa em abril de 2019 ao tentar impedir a deputada Maria do Rosário (PT/PR) de falar com Guedes durante depoimento dele à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
Daniella é uma espécie de “alter ego” de Guedes e, no governo, teria tido aval inclusive para negociar em seu nome como secretaria de Produtividade e Competitividade do Ministério da Economia.
Com o fim do governo Bolsonaro, Daniella seguiu os passos do chefe na iniciativa privada. Guedes, como todo o mercado sabe, segue dando cartas no BTG. Tanto que ensaiou um acordo para ser sócio da Legend Capital, uma gestora de fundos afiliada ao BTG.
Em março de 2024, no entanto, o ex-super-ministro da Economia anunciou que atuaria como conselheiro sênior da Legend, “posição a partir da qual permanece atuando em temas estratégicos e pontuais, até pela proximidade longeva com os sócios”, segundo nota divulgada pela assessoria dele.
Para seu lugar, na Presidência do Conselho da Legend, escalou a fiel escudeira Daniella Marques.
Em setembro de 2025, o mesmo Brazil Journal fala da atuação da pupila de Guedes na Legend, “o wealth management que Pedro Salles e Túlio Lopez fundaram em 2020 e hoje assessora R$ 35 bilhões de clientes”, sem mencionar outro sócio: Roberto Justus.
Entre os “cases” da Legend, está a distribuição do patrimônio na conturbada separação do empresário Alexandre Correa da apresentadora Ana Hickmann, que foi cerimonialista da posse de Daniella no comando da Caixa Econômica.
Wealth management (gestão de patrimônio) é um serviço financeiro voltado para pessoas ou famílias com patrimônio elevado que precisam organizar, proteger e fazer crescer seu dinheiro de forma estratégica. Ou seja, Daniella atua junto aos clãs de endinheirados no Brasil, construindo “pontes para o middle market”, segundo o site.
O termo cunhado pelo mercado pode ser resumido como a ponte entre os grandes empresários que buscam comprar médias empresas por meio do mercado financeiro, aumentando a concentração de renda nas classes mais abastadas – e consequentemente aprofundando o fosso da desigualdade no país.
Em um pretenso governo Flávio Bolsonaro, a “Paulo Guedes de Saia”, como definem os banqueiros, retomaria as políticas neoliberais de seu eterno chefe e colocaria o Brasil de volta nos trilhos historicamente desejados pela Faria Lima, drenando recursos e empresas públicas para as mãos dos endinheirados que controlam o mercado, a mídia liberal, o Centrão e a ultradireita neofascista por meio dos cabrestos em suas apostas eleitorais.
Em 23 de junho, a Polícia Federal deflagrou a Operação Miragem e realizou buscas contra executivos do Banco Digimais. Edir Macedo foi alvo de quebra de sigilo bancário e fiscal, além de uma ordem de confisco de R$ 670 milhões dele e de outros investigados. A PF aponta que o Digimais investiu cerca de R$ 600 milhões em carteiras de crédito vinculadas ao Banco Master, de Daniel Vorcaro, que foi preso pela corporação. Segundo a polícia, o banco mantinha créditos de “origem duvidosa” e realizava captação de recursos com taxas acima do mercado, o que indica, na avaliação da PF, gestão temerária ou fraudulenta.
A corporação vai além da gestão imprudente. “Os investigados teriam manipulado demonstrativos contábeis e registros regulatórios para ocultar a real situação financeira da instituição, para aparentar solvência perante os órgãos de controle e para viabilizar operações supostamente irregulares”, afirmou a Polícia Federal em comunicado.
Em representação da PF, a corporação detalhou que “a diretoria do Banco Digimais replicou a prática de superavaliar ativos mediante a emissão de títulos com rentabilidades desproporcionais aos indicadores de mercado, efetuando manipulações nos balanços, com o objetivo de ocultar dos órgãos de controle a deterioração da sua carteira de crédito”.
O movimento dos ativos da controladora do banco reforça o quadro: auditoria publicada junto ao balanço da B.A. Empreendimentos e Participações S.A. mostra que os ativos subiram de R$ 785 milhões em 2024 para R$ 1,8 bilhão em 2025, com grande parte da alta vindo de uma operação de compra de cotas do fundo Hermon FIDC-NP, do próprio Digimais, pela controladora, no valor de R$ 741 milhões, realizada após a saída dos conselheiros.
A revelação chega em momento de fragilidade para a pré-campanha de Flávio Bolsonaro. A pesquisa BTG/Nexus de 15 de junho mostrou que o presidente Lula ampliou a vantagem sobre o senador de 1 para 9 pontos percentuais em apenas 20 dias. O recuo foi impulsionado, segundo análise da Fonte 2, pelo áudio em que Flávio cobra do banqueiro Daniel Vorcaro parte dos US$ 24 milhões prometidos para o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. O caso gerou, ainda segundo a mesma análise, “um efeito externo ao bolsonarismo”, especialmente entre eleitores não polarizados.
O desgaste é mais profundo entre grupos que deveriam ser base sólida do senador. Entre as mulheres, Lula abriu 20 pontos na pesquisa BTG/Nexus, liderando por 49% a 29%. Entre os evangélicos, a pesquisa Atlas Bloomberg, divulgada em 19 de maio, registrou queda consistente: em março, Flávio tinha 65,4% de apoio nesse eleitorado contra 14% de Lula; em abril, caiu para 58,6%; com a revelação do caso BolsoMaster, o apoio recuou mais 8 pontos, chegando a 50,9%, enquanto Lula subiu para 25%. A conexão de Daniella Marques com o Digimais, instituição sob investigação da PF pelo mesmo tipo de emaranhamento financeiro que já desgastou o senador no caso Master, adiciona mais um elemento ao quadro que a campanha de Flávio Bolsonaro precisará explicar, sobretudo para o mercado financeiro que ela foi contratada para convencer.
REDAÇÃO + revistaforum
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