DEUS SE ESCONDE NA NOVILÍNGUA

Quando criança, me ensinaram que Deus cura, salva, socorre aos necessitados e aflitos… E eu tentava falar com Deus para ver se ele me salvava da pobreza, curava meu medo de não “vencer”, me socorria nas provas de Matemática. Mas era inútil, pois Deus estava ajudando a soltar bombas de Napal sobre as crianças vietnamitas.

Antes disso, Deus já havia ajudado aos Estados Unidos, despejando duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagazaki, que ceifaram a vida de mais de 200 mil pessoas. Por que Deus se preocuparia com uma criança periférica, do Nordeste, cheia de sonhos e pureza de alma?

O tempo foi passando e eu vi outras guerras, vi a violência crescer e os cristãos se apossarem de Deus e difamarem todos os que a Ele não recorressem, através do seu filho, Jesus, uma espécie de filho descartável, porque foi morto sob as barbas e com a permissão do todo poderoso. E percebi que na Bíblia, dita sacra pelos cristãos, houve atrocidades cometidas pelo criador e em nome dele, mas sempre alguém tenta justificar que a vontade de Deus não se questiona. Eu então devo ser uma cópia falsificada, sem vontade, sem compaixão, sem apelo divino, porque sou da periferia, como milhões de jovens pelo mundo. Nascemos com as marcas da indiferença, da exclusão, da vulnerabilidade e do julgamento de pessoas iguais a nós, mas iludidas sobre si mesmas.

Então, lembrei do livro 1984, de George Orwell. Há um sistema montado para excluir os pobres e cooptar os que, por um tempo, podem servir e depois serão descartáveis, como é adotado pelo Capitalismo. O pior começa quando há um olho que vê tudo (big brother), uma individualidade invadida (redes sociais) e um Estado autoritário para comandar os interesses das elites (Estados coloniais). E Deus vira mercadoria na prateleira do poder. É distribuído em milhares de seitas, centenas de igrejas, milhões de usuários desesperados por uma salvação, uma cura, um atendimento urgente a um pedido de socorro. E esses intermediários do divino, padres, pastores, líderes religiosos os mais diversos (em sua maioria) atuam na necessidade das pessoas mais vulneráveis e mais desinformadas. Quanto maior é a alienação educacional, política e cultural, mais forte é o poder sobre eles exercido. E esses atravessadores da fé usurpam a ingenuidade e a fraqueza de argumentos dos que não têm conhecimento.

Para isso, Orwell trabalha numa ferramenta eficaz para aliciar e enebriar os sentidos dos incautos. A transformação da língua apascentando palavras ou expressões cruéis em expressões atenuantes da crueldade. Genocídio passou a ser “controle de revoltosos ou terroristas”, como é feito em Gaza; ataque dos colonizadores a países que estão livres do jugo do Capitalismo ou se revoltam contra a exploração, agora é denominado “direito de defesa” contra possível ameaça, como foi o caso do Iraque, da Síria, da Líbia… que, sob falsas acusações os Estados Unidos destruíram as economias e dilapidaram o patrimônio e as riquezas dos países invadidos. Ao fim de tudo, nada era o que se dizia, mas aí não importa, os zumbis municiados de mentiras pela internet já não têm senso crítico ou conhecimento para avaliar o que é certo ou errado.

Olho para as crianças mortas e despedaçadas de Gaza, olho para os famintos e os sem teto das ruas, olho para as mulheres violentadas e assassinadas pelos mesmos representantes do colonialismo, do patriarcado, dos senhores de engenhos e donos da Casa Grande. Eles estão aos montes, matando, usurpando, roubando e ferindo em nome de Deus ou apoiados pelos Estados que usam Deus como símbolo de justiça. As ratazanas que traficam influência sobre a ingenuidade, saqueando os pobres em troca da falsa promessa de salvação não se importam com as dores de ninguém. Estarão sempre ao lado do poder e dos que contabilizam dados estatísticos e algoritmos que se transforma em lucro.

O bilionário Epstein criou uma rede de pedofilia e trafico de seres humanos. Realizava bacanais com crianças e servia banquete de carne humana como tira-gosto. Ele, e todos os bilionários e políticos que aparecem nas milhões de páginas sobre o maior e mais impiedoso crime contra crianças da humanidade, tinham certeza da impunidade e temiam pelas suas vidas quando começaram a receber ameaças de vazamento de informações. Epstein foi encontrado morto em sua cela. Trump e os comparsas que alimentam o sistema estão arrotando arrogância e ameaçando povos para desviar o foco da desumanidade cometida.

Chamei Deus para uma conversa. Ele estava ocupado. Também, com um caos deste, quem vai se ocupar com alguém cujo coração chora pela dor dos desgraçados, que clama por afeto e carinho para que possa se tornar mais forte nas lutas por um mundo melhor. Apesar de tudo, acredito no amor dos que constroem formas humanizadas e utópicas de termos uma sociedade mais afetuosa e menos descartável.

 

 

  • Carlos Gildemar Pontes (Poeta, Escritor e Professor da UFCG)