Da Várzea ao centro do mundo

Há um ano, quando Cabo Verde se classificou de forma inédita para uma Copa do Mundo, foi no Estádio da Várzea, na cidade de Praia, que a bandeira nacional tremulou. O local não poderia ser mais simbólico. Havia sido ali, 50 anos antes, que a mesma bandeira seria hasteada, marcando a independência do novo país e o fim do colonialismo português.

Naquele momento, Cabo Verde não tinha uma seleção e, com apenas alguns poucos habitantes espalhados por dez ilhas vulcânicas, jamais imaginou que estaria disputando um torneio de dimensões globais.

Meio século depois, foi naquele local mítico que a população e as autoridades optaram por comemorar. Um feriado chegou a ser considerado e o presidente, José Maria Neves, comparou a classificação a uma “nova independência”. “Se hoje, 50 anos depois, estamos na Copa do Mundo, já provamos que somos uma nação viável”, escreveu o presidente nas redes sociais.

“O Dia da Independência e o dia 13 de janeiro de 1991 – quando foram realizadas as primeiras eleições multipartidárias – são as duas datas simbólicas que uniram o nosso povo”, disse José Maria Silva, diretor nacional de protocolo de Estado. “Esta qualificação para o Mundial já pode ser considerada o terceiro momento decisivo da nossa nação”, insistiu o dirigente, no ano passado.

Diáspora pelo mundo


A história de uma “Seleção de Várzea” que desembarca no maior palco do mundo, porém, é também um espelho de uma construção política. Por trás da surpresa, existia um plano.

Para formar um time competitivo, a decisão do técnico Pedro Leitão Brito, conhecido como Bubista, foi a de recorrer à enorme diáspora cabo-verdiana pelo mundo.

No país, de fato, essa diáspora é apelidada de a 11ª ilha do arquipélago. Nunca a piada teve tanto sentido como no caso da formação de um time de futebol.

Ao longo dos anos, mais 1,5 milhão de pessoas foram viver no exterior. No fundo, o país é maior fora dele do que em seu território, com cerca de 600 mil habitantes. Em diferentes momentos das últimas décadas, secas prolongadas e uma pobreza extrema e teimosa conduziram gerações inteiras para o exterior, em especial para a Europa.

Entre 193 países do mundo, Cabo Verde ocupa apenas a 135ª posição no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU. Nessa classificação, Portugal ocupa a 40.ª posição.



Assim, dos 25 jogadores que foram para a Copa, 14 deles nasceram fora do país, incluindo Portugal, Holanda e França. Só a cidade de Roterdã, onde moram mais de 20 mil cabo-verdianos, gerou seis jogadores para a seleção nacional.

“Poder retribuir os esforços dos nossos avós e pais, que emigraram para nos dar um futuro melhor, por vezes até trabalhando em dois empregos ao mesmo tempo, é o mínimo que podemos fazer”, afirmou Livramento, um dos jogadores “estrangeiros” da seleção.


A construção desse time da diáspora, porém, não ocorreu da noite para o dia. Profundamente frustrados com os repetidos fracassos da seleção de Cabo Verde, os dirigentes locais iniciaram a busca por craques no exterior em 2002.

Naquele momento, os cartolas convenceram Lito, um jogador que atuava em Portugal, a seduzir outros descendentes das ilhas a considerarem jogar pela seleção do país africano.

Era necessário ainda ter um pé local e, para isso, o treinador usou dois jogadores como símbolos: Vozinha e Stopira.

Outra estratégia foi a de incentivar o grupo a se comunicar no idioma recorrente das ruas do país, o Creole. Muitos dos jogadores desembarcaram falando inglês, mas foram incentivados a construir uma identidade e cidadania a partir da língua.

Independentemente do resultado que terão, os jogadores da seleção de Cabo Verde sabem que, ao retornar ao país, serão recebidos com honras de Estado. Um dos projetos é que a população seja convocada para festejar os craques no Estádio Nacional, um monumento que reflete a geopolítica do século 21. O local foi erguido pela China, numa espécie de gesto diplomático que Pequim tem repetido pelo continente africano para ganhar a simpatia e a aliança de governos locais.

Já a Federação do Cabo Verde levará da Copa um cheque de, pelo menos, US$ 10 milhões por participar da fase de grupo. Um dinheiro jamais visto na entidade, que conta com oito funcionários. A esperança dos dirigentes é a de usar os recursos para espalhar ainda mais olheiros pelo mundo e permitir que a seleção continue competitiva.

Por enquanto, porém, dirigentes, políticos e a sociedade consideram que a Copa já foi histórica ao provar ao mundo – e a eles mesmos – a viabilidade de um país chamado Cabo Verde.


*Jamil Chade (Jornalista)