Alta no preço da carne bovina leva argentinos a buscarem alternativas mais baratas, como porco e frango e agora até carne de burro.
Para incentivar a medida, o canal argentino La Nación+, que apoia Milei, colocou uma repórter para comer carne de burro ao vivo em horário nobre. Ela afirma: “o cheiro já me conquista”. Ao provar, diz que é “muito bom” e que “se parece com carne de vaca”.
El programa de Trebucq directamente militando la carne de burro en horario central. ¿Cómo llegamos a esto? Pensar que nos reíamos de los macritips porque decía que nos abriguemos para no prender la estufa. Esto ya es otra liga. El descenso absoluto. pic.twitter.com/OT9MewMv5W
— Todo Negativo (@TodoNegativo) April 18, 2026 itter-tweet-rendered”>
De acordo com reportagem do Página/12, a carne bovina — tradicional na dieta argentina — passou a ser considerada um item de luxo. Nos últimos meses, os preços registraram aumentos expressivos, com alta superior a 10% em apenas um mês. Alguns cortes chegaram a ultrapassar 25 mil pesos por quilo, o que levou muitas famílias a reduzirem drasticamente o consumo.
Inicialmente, a substituição ocorreu por proteínas mais baratas, como frango e porco. No entanto, com o encarecimento também desses produtos, consumidores passaram a recorrer a alternativas ainda mais econômicas, como ovos.
O cenário está inserido em um contexto de inflação persistente. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) subiu 3,4% em março, acima dos 2,9% registrados em fevereiro, atingindo o maior nível em um ano. No acumulado de 12 meses, a inflação chegou a 32,6%.
Desde que assumiu a presidência, em dezembro de 2023, Milei implementou um amplo pacote de reformas econômicas. Entre as medidas estão a paralisação de obras federais, a suspensão de repasses às províncias e a retirada de subsídios em áreas como energia, transporte e serviços essenciais — fatores que contribuíram para a elevação generalizada dos preços.
Nesse contexto, surgiu a proposta de comercialização da carne de burro, vendida por cerca de 7.500 pesos o quilo. Em Buenos Aires, o açougueiro Gonzalo Moreira relatou os impactos da crise no setor. “Estamos enfrentando uma recessão importante. Não conheço comerciante que não esteja passando por dificuldades. O setor está sendo muito pressionado, mesmo sem grandes variações de preço. Tudo é pago com cartão, empurrado para frente”, afirmou à Rádio 750.
Ele também destacou mudanças no comportamento dos consumidores: “E a comida também começa a ser paga em parcelas. A gente vai reorganizando as vendas. As pessoas deixaram a carne bovina, que caiu cerca de 20% nas compras, e passaram para o porco ou o frango. Um quilo de carne bovina custa entre 15 mil e 18 mil pesos. Já o porco fica entre 8 mil e 9 mil pesos”.
Sobre a nova alternativa, Moreira reconheceu o papel da carne de burro diante da necessidade, mas demonstrou resistência cultural. “Se for para enfrentar a necessidade diária, não digo que seja o melhor… Mas há pessoas que ao menos podem ter acesso a esse tipo de alimento”, disse. “Não estou de acordo. Acho que não quero comer um burro. Estamos acostumados a comer vaca. Mas, se tiver que levar isso para outro lado… Ninguém gosta de comer coelho, mas se come há toda a vida”.
A iniciativa de comercialização partiu do produtor rural Julio Cittadini, responsável pelo projeto “Burros Patagones”. Segundo ele, a procura surpreendeu. “O que colocamos à venda acabou em um dia. Em um dia e meio não restou nada”, relatou.
O empreendimento possui autorização do Ministério da Produção da província de Chubut e segue normas sanitárias, configurando-se como uma atividade formal dentro do setor agropecuário.
REDAÇÃO + revistaforum