Calma, o mundo ainda não perdeu a essência. Nós, que fazemos o mundo, somos seres essenciais. Buscamos satisfazer nossas expectativas e traçamos planos para a felicidade. Só esquecemos, às vezes, de acentuarmos nossa essência que pode ser alterada e modificada ao longo da vida, como algo que se molda às circunstâncias.
A diferença abismal entre o que pensamos e como agimos vai depender de uma série de fatores. Classe social, gênero, raça, cor, religião, cultura, ideologia. O que serve para uns não serve para outros, o que ajuda uns, prejudica outros. É uma matemática que não dá resultados iguais porque, antes, somos diferentes. Muitos agem por impulso, motivados pelo desejo de conquistar poder, posição financeira privilegiada, orgulho, vaidade. Outros tantos, buscam a sobrevivência como única medida para suas vidas de dificuldade. Uns poucos, tentam equilibrar os dois modos anteriores de existência, mas há os que são essenciais, aqueles que devotam uma vida a construir laços de amizade, afetos e amar sem medo de gastarem sua ilusão de poder ou sua condição limitada de sobreviver.
Os seres essenciais nunca desistem. São capazes de se refazerem todos os dias, se preciso for. E nunca descreem nas possibilidades de integrar o amor e a vida de uma forma harmônica, evitando que os ruídos da comunicação ou o mal-estar passageiro possa romper o elo que fortalece suas almas. Por isso, sofrem. São descartados pelo orgulho e pela vaidade dos mais fracos e pela urgência dos mais necessitados. É nesse ponto que os fatores citados acima, como a cultura, que envolve a educação, os ensinamentos familiares, a piedade de uma fé que deveria existir, visto que muitos se investem como religiosos, devotos, repetidores de dogmas da boca para fora e não conseguem se satisfazer com o que têm. A diluição dos afetos e as tormentas do dia a dia apagam suas essências e deixam fluir o sentimento de desapego, de descarte, de desconfiança, de insegurança. Acostumam-se a viver em grupos que repetem padrões e círculos fechados na mesmice, apressando a diluição cada vez maior daqueles ensinamentos que guardaram de seus pais, dos seus professores e das almas silenciosas que chegaram e partiram, deixando a palavra que exalava verdade, bondade e tranquilidade através do amor que entregaram.
Os seres essenciais também se desgastam. Sufocam. Pedem ajuda. Porque no fundo sabem que o tempo da existência nesse mundo é sem volta. Quem ama não quer ver o sofrimento do outro, não se torna indiferente às dores do outro, não abdica de levar o outro ao conhecimento da sua própria essência, que muitas vezes está abafada, amortecida pelos desencontros da vida.
O mundo não perdeu a essência. Alguns de nós é que nos tornamos indiferentes ao essencial. E, como disse Antoine de Saint-Exupéry, “o essencial é invisível aos olhos”, porque só o que importa é o que o coração sente, o que a mente intui de solidariedade e o que sentimos caminhando em direção ao outro. Por isso, a urgência de construirmos amor, solidariedade, energias positivas, bondades múltiplas, para não nos tornarmos autômatos de uma vida sem essência e sem alma.