PAPAGAIO VIRA-LATAS

Ao pensar em um título para este artigo, me veio à mente algo de agrado dos acadanêmicos (acadêmicos anêmicos), tipo A CULTURA DA CITAÇÃO DILETANTE. Mas minha origem falou mais alto. Meio isso, meio aquilo, vou me conformando à estrutura do sistema como um ser híbrido, mestiço e imensamente orgulhoso disto. Por isso, vou aqui desconstruir um pouco das certezas.

Vi nas redes sociais uma polêmica que se lançou recentemente sobre a posição do Nego Bispo como anti-filósofo decolonial ou do anticolonial. É preciso pingar nos “is” para continuar a escrita ou entrar na polêmica com uma voadora nos cérebros compartimentados em teorias e conceitos coloniais, colonizados ou emprestados por falta de uma maior vivência nos terreiros do mundo real. Antes de prosseguir, digo com todas as letras que sou decolonial e não sou anêmico. Sou escritor e professor universitário. Periférico e excluído pelo sistema que criou os apavorantes seres do chicote e do bacamarte, aperfeiçoados pelas mídias controladoras que abestalham seres incapazes de distinguir uma realidade de uma mentira fabricada e difundida pela mídia. Voltando à polêmica, numa das falas do Nego Bispo, deitado numa rede, dizia o nosso anti-filósofo que não era decolonial. Era, sim, anticolonial. Para essa divergência eu não vejo problema, são apenas terminologias que satisfazem aos formadores de opinião e/ou aos papagaios das citações. Anti/des/de colonial são da mesma raiz libertária de romper os grilhões, lutar pela educação, pela saúde, por moradia, por terra… por dignidade. Tenho lido muita arenga e muito texto sobre dedolonialismo apoiados em autores da tradição ou da moda. Os marxianos de Marx, os gramscianos de Gramsci, os fanonianos de Fanon, os simasnianos do Simas, os negobispianos do Nego Bispo ou até os doutores enfadonhos da tradição citam para explicar e alguns (doutores) não saem da papagaiada. Quando critico o complexo de doutorismo que assola a universidade brasileira, o faço no olho do furacão. Estou na Universidade (UFCG) há 33 anos e sou Pós-doutor em Literatura Comparada pela UFC. Falo do meu lugar. Não acredito em lugar de fala. Lugar de fala é qualquer lugar em que eu possa falar, com ou sem permissão. Dito isto, vamos às outras voadoras.


Qualquer um fala o que quer de acordo com a sua vinculação ideológica, que envolve religião, raça, orientação sexual, etc e tal, e quer analisar tudo à luz de uma teoria pré-existente, invariavelmente produzida fora do território onde quer se aplicar, com o filósofo que explica tudo, de acordo com as condições materiais e culturais que produziram sua base conceitual, muitas vezes, completamente adversa às condições a que/quem são dirigidas. Nem o Jones, nem o Nego Bispo, nem o Ailton Krenak, nem o Luís Antônio Simas, nem o Uribam Xavier, nem o Sebastião Cardoso têm a chave conceitual para abrir a porta deste inferno. Estamos construindo essa vertente, a partir do hibridismo e da mestiçagem que nos é peculiar. Entre os professores universitários que se dizem Decoloniais, aqui me incluo, há os que vivenciam esta prática decolonial desde sempre, mesmo antes de entrar na universidade. Nossas práticas estão mais próximas do povo da rua do que do povo dos bares da pretensa intelectualidade pródiga em citações. Somos os que aprendemos a citar Marx, Foucault, Bakunin, mas também citamos dona Irismar, dona de casa; seu Beto cachaceiro, aposentado; seu Luiz marinheiro, mentiroso contumaz; seu Zé sapateiro, enjoado que dá desgosto; dona Dalva pretinha, mãe de santo das áreas do Piramba… Poderia citar aqui centenas de teóricos decoloniais que acham esses intelectualoides chatos e desenxabidos.


Portanto, invocar ou tachar quem está no meio das coisas, coisando, pra ver se descoisa o que os estrangeiros coisaram é difícil. Até os que estão do mesmo lado deixam transparecer seus pruridos burgueses de citar os outros (de fora) para descredenciar os que tentam contribuir de alguma forma com os daqui. Não entro nesse jogo. Estou nesta lida desde os 22 anos, quando fiz minha primeira publicação. Debato com qualquer um que não tenha pegado ônibus lotado e não tenha ficado do lado de fora do clube ou do estádio, esperando a hora do pobre para poder pegar as sobras da festa. Escrevo amparado nos que estão na margem e nos que estão na tradição. Quanto a estes últimos, sempre com um pé atrás ou um pé na bunda deles. Tenho me fortalecido todos os dias, travando um embate com a estrutura burocrática paralisante que toma conta dos órgãos públicos e da imensa sede das empresas privadas de chupar nosso sangue, sendo contra todos os direitos humanos de existir condignamente e poder voltar para casa para abraçar a família e os pequenos prazeres de comer junto, ver TV junto, contar piada, resenha do dia etc.


O texto publicado no sítio da Boitempo é mais uma manifestação do empapuçado intelectual que desautoriza alguém do povo por não conhecer ou supor que não conhece sobre o que fala. Além do mais, reduz o pensamento do Nego Bispo a uma fatia da pobreza, da negritude, dos quilombolas, como se fosse apenas um gueto a se rebelar sem causa. Talvez isso seja, não descarto a estratégia do capitalismo voraz de ganhar até nas polêmicas anticapitalistas, mas que podem gerar dinheiro. Será que a Boitempo não irá promover em breve uma publicação maciça da obra do Nego Bispo ou dos que não suportam mais os aufklärungueiros herdeiros de Frankfurt, de Platão ou Aristóteles.


Cada dia me certifico mais que os tupinambás, o Lima Barreto, o Sérgio Buarque de Holanda, o Antonio Candido, o Nelson Werneck Sodré, o Luiz Antônio Simas, o Luiz Rufino, o Uribam Xavier, o Haddock-Lobo, o Sebastião Cardoso e, se tiver espaço para embotar um pouco as certezas, este que aqui escreve, terei imenso prazer em lhes apresentar e depois saber o que pensam deles.

 

 

  • Carlos Gildemar Pontes (Escritor e professor UFCG)