Eu tinha todo o tempo do mundo

Eu tinha todo o tempo do mundo, por isso, eu não me preocupava com o ar que eu respirava, as pessoas que me importavam verdadeiramente e a construção de um mundo para o amanhã. O meu tempo era apenas o dia de hoje. Diante dessa forma de encarar a vida eu cheguei a duas formas de me posicionar diante do outro. Dar importância a mim e ao que minha vontade pede ou dividir a minha vontade com a vontade do outro, para que a relação entre mim e meus pais, meus irmãos, meus filhos, meus amigos, meus apenas conhecidos e as pessoas com as quais nos relacionamos com afeto e dividimos o mesmo teto ou a mesma escolha de viver, seja de forma harmoniosa e solidária.

É natural que nossos pais se vão primeiro, nossos tios, nossos amigos distantes, nossos filhos nos deixam para viver suas vidas, os amigos vivem suas vidas, os conhecidos não são parte tão próxima de nós, também se vão. E os relacionamentos que deveriam ser a nossa base de segurança para preenchermos a solidão existencial, muitas vezes, é sufocada pelo egoísmo, pela vaidade, pelo melindre, pela necessidade de manter a aparência sempre em primeiro plano, para que os outros nos vejam como fortes, importantes ou poderosos no nosso pequeno mundo de desimportâncias. Tudo isso devora nossa consciência e nos afasta do que há de mais fundamental nas relações humanas, o cuidado com o que queremos ser amanhã, isso se houver um amanhã.

Se houver, de fato, um amanhã, como gostaria de ser visto nesse amanhã? Importante, poderoso, rico, cercado de pessoas a me bajular, exigindo que eu também haja da mesma forma? Talvez, eu só precise olhar um pouco para o outro, como se o outro fosse eu mesmo. Como se a dor que sente possa um dia me abater e eu precisar dele.

Não. Eu não tenho todo o tempo do mundo. Eu só tenho o dia de hoje para fabricar um possível dia de amanhã. E para que seja possível esse dia, eu quero ter o afeto que não dei, o colo que neguei e a empatia que não construí. Nisso residirá a minha humanidade. Preciso entender que, o que quis não me torne somente um projeto de ser humano egoísta e solitário, preenchendo meus vazios com os vazios dos outros e deixando o tempo passar sem pensar que amanhã eu quero apenas estar com quem quer minha presença, como se fosse o único dia das nossas vidas.

Fontes: * CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza–CE. Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor e Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Contato: gilpoeta@yahoo.it