A Sapucaí como crônica do Brasil

Aprendi, desde cedo, que a esperança é uma forma de resistência íntima. Em muitos momentos da vida, quando as circunstâncias pareciam hostis ou limitadoras, foi o sonho que me impediu de sucumbir ao medo e às angústias. Os desiludidos se entregam à passividade e perdem o interesse pelo mundo. Eu sempre temi essa forma silenciosa de desistência. Por isso, cultivar sonhos sempre foi, para mim, uma necessidade vital.

Fazer planos, imaginar futuros possíveis, é como experimentar o prazer de voar com a certeza de que não se está sozinho no ar. Ter esperança é sonhar acordado, acreditando nas mudanças que julgamos necessárias, buscando recomeçar, reinventar caminhos, contrariar destinos aparentemente traçados.

Entre tentar ou desistir, aprendi a rejeitar a segunda opção. A vontade alimenta os sonhos, e desistir é uma palavra que precisa ser banida do vocabulário de quem ainda acredita na vida.

Somos metamorfose constante, e a experiência me ensinou que quem se contenta apenas em sobreviver abdica da possibilidade de sonhar. Lembro-me de Voltaire, ao afirmar que os sonhos e a esperança nos foram dados como compensação às dificuldades da existência. Essa frase sempre me acompanhou como uma espécie de guia interior.

Os vencedores, penso hoje, são aqueles que persistem em lutar por seus sonhos. Eles não envelhecem, como canta Milton Nascimento em Clube da Esquina nº 2. Transformam-se com o tempo, ajustam-se às circunstâncias, mas continuam sendo sonhos — e são eles que dão sentido à vida. Com os anos, compreendi que não basta sonhar de maneira abstrata; é preciso transformar o sonho em propósito, em meta concreta, em projeto possível. A ousadia nos sonhos se sustenta na autoconfiança e no autoconhecimento, conquistas que só o tempo e a reflexão oferecem.

Não quero deixar meus sonhos guardados em gavetas, como lembranças de algo que não tive coragem de viver. Quero que sejam mais do que imagens fugazes: que sejam propósitos responsáveis, capazes de orientar minha caminhada e justificar minha passagem pelo tempo.

O desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, ocorrido na noite do sábado de Carnaval, no Rio de Janeiro, produziu uma polêmica reveladora do quanto a cultura popular ainda causa incômodos nas elites políticas quando ousa abordar temas que as contrariam. Setores conservadores tentam deslegitimar o direito do Carnaval se posicionar, produzindo um discurso que acusa a escola de fazer propaganda política antecipada, ignorando que toda manifestação cultural é, inevitavelmente, política.

O que se viu na Marquês de Sapucaí foi um gesto de afirmação cultural e democrática, reafirmando a compreensão de que o Carnaval é, por excelência, um espaço de pedagogia social. A biografia de um líder popular transformada em samba-enredo celebra a possibilidade de o povo reivindicar seu lugar na história. Ao narrar a saga do retirante nordestino que se torna líder sindical e, posteriormente, presidente da República por três mandatos, o enredo construiu uma epopeia popular, na qual a ascensão social não aparece como exceção individual, mas como expressão de um projeto coletivo de nação.

A Acadêmicos de Niterói inscreveu-se na tradição das escolas que transformaram a avenida em tribuna pública, onde a memória dos oprimidos e excluídos encontra voz e visibilidade, ultrapassando os limites do espetáculo carnavalesco para se converter em acontecimento político-cultural de grande densidade simbólica. Ao escolher como enredo a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva, a escola não apenas homenageou um personagem central da história recente do Brasil, mas também interveio na disputa de narrativas sobre o país, sua democracia e suas classes populares.

O Carnaval, desde suas origens, jamais foi um evento exclusivamente de entretenimento. Sempre foi o momento em que o povo reescreve a história, transformando a política em linguagem estética e reafirmando sua tradição de festa urbana democrática e de resistência. A exaltação de Dona Lindu, Zuzu Angel, Henfil, Betinho, Vladimir Herzog, entre outros, nos carros alegóricos, complementou a denúncia histórica de um tempo em que a cultura foi monitorada e a censura se converteu em método, punindo, inclusive com a morte, os que ousaram desafiar o autoritarismo vigente por 21 anos após o Golpe de 1964.

A relação entre arte e política atravessa a história da humanidade. No período momesco, tornou-se comum, especialmente no Brasil, o engajamento político como manifestação artística.
Os enredos das escolas de samba adquirem dramaturgia própria, voltada para os problemas sociais e os dilemas políticos. Evidentemente, críticas e sátiras despertam iras e descontentamentos. Porém, é preciso compreender que a democracia carnavalesca não pode ser tratada como fantasia descartável, retirada e lançada às cinzas antes mesmo da quarta-feira.

Silenciar o Carnaval é colocar sob ameaça a própria ordem democrática, na qual política e sociedade devem ser questionadas com humor, criatividade e irreverência. Entre metáforas e ritmo, o Carnaval revela-se linguagem política e instrumento de resistência.

Quando tentam esconder a crítica política e as verdades históricas, apenas confirmam que elas se faziam necessárias. As arquibancadas perceberam isso, aplaudindo e cantando o enredo da Acadêmicos de Niterói. O Carnaval é o lugar onde o povo ensina a liberdade. E o importante é que a escola fez história. Tornou-se o assunto dominante do desfile deste ano. Cumpriu seu papel.

 

  • RUI LEITÃO (Escritor e membro da APL)