A LENDA DO CURUMIN GUERREIRO

Ele nasceu numa aldeia perdida no meio da Amazônia. E poderia ter nascido em qualquer lugar. O curumin teria qualquer nacionalidade, raça, etnia credo… seria uma criança que contemplaria o mundo a partir da sua curiosidade.

Num dia de chuva, ele se encostou perto do avô e disse que queria ser forte como o guerreiro mais forte da aldeia. E o avô lhe indagou: Para queres ser forte?
– Para dominar meus adversários, – respondeu o curumin.

E o avô, com um sorriso contido, advertiu. E quem seriam estes adversários, se não domares primeiro o fogo, a paixão, o vício e os erros que habitarão em ti, antes de te tornares guerreiro!?

O curumin olhou para o céu, esticou a vista para o seu redor e disse ao mais experiente dentre eles:

– Como eu sei se consigo domar o fogo, a paixão, o vício ou o erro, se não sei ainda como eles são? E se eles me dominarem? E se o senhor não estiver por perto, a quem devo perguntar?

O velho sábio se levantou do tronco caído da árvore e caminhou até a beira do rio. Está vendo a água, contornando a pedra, arrastando folhas, galhos e lá na frente, aflita com o seu destino, cairá no mar e não será mais rio, será parte do mar. Assim somos nós. Somos como a água e nos alimentamos de tudo. O que é bom, o que é ruim, o que não é necessário. Mas, ao entrarmos no mar, passamos a fazer parte de algo maior que nós e levamos nossas experiências para dentro do mar. E lá têm milhões de experiências dentro dele. E nós só precisamos saber que um dia fomos imperfeitos e não tivemos força para voltar e consertar os erros que cometemos. Mais sábio do que nós, é o mar.

– E por que não aprendemos antes a dominar nossos erros? – perguntou o inquieto curumin.

Porque somos egoístas, queremos o mundo do nosso jeito e não aceitamos o mundo dos outros. E entramos em guerra contra o que está em nós, atacando os outros. Quando percebemos que nossos erros é que nos enfraquecem, fugimos e nos escondemos no medo. O medo nos distancia da nossa verdadeira essência. O medo nos acovarda e nos torna mesquinhos. O medo nos afasta do amor dos outros e nos faz pensar que o amor é uma fraqueza que pode abolir nosso poder de chefiar somente o medo.

Um velho sábio de outras terras, uma vez, disse ao seu filho: Existem dois lobos dentro de cada um de nós. Um lobo mau, que domina nossa mente e propaga o mal em diversas formas: a inveja, a cobiça, ganância, a crueldade… e um lobo bom, que dissemina o amor e tudo que dele pode advir: a paz, a harmonia, o bem estar, a alegria…

…- e como podemos dominar o lobo mau e atrair o lobo bom?

É simples. Basta alimentar um dos dois. Aquele que você alimentar dominará sua consciência e moldará o seu jeito de ser.

 

 

  • Carlos Gildemar Pontes (Escritor e Professor UFCG)