Quando o Brasil vai sarar?

A hora da verdade está próxima para consolidar a democracia e desestimular aventuras golpistas

 

Que o Brasil está doente não é de hoje nem precisa ser médico para saber.

Só nos últimos dias, tivemos vários exemplos, desde os mais corriqueiros até os mais graves. Se não vejamos, como dizem os matemáticos.

Entre os corriqueiros, vimos dois em estádios de futebol. Na Vila Belmiro, em Santos, e no Rio de Janeiro, no Maracanã.

Naquela que já foi chamada de “a vila mais famosa do mundo”, graças ao Rei Pelé, o atacante santista Gabigol foi expulso de campo ao fazer gesto obsceno para um torcedor que o criticava.

Sem a menor cerimônia, levou a mão à genitália e recebeu o cartão vermelho correspondente. Deixou seu time com dez e o expôs a passar o período da Copa do Mundo na zona do rebaixamento.

Ao sair de campo, porém, recebeu calorosos aplausos de torcedores sem noção. A cafajestagem recompensada galhardamente por seus iguais.

Por acaso, ou não, ele é cunhado de Neymar.

No dia seguinte, no cartão de visitas do futebol brasileiro, o Maracanã, um dia chamado de “o maior do mundo”, a torcida organizada pela CBF, paga por seus patrocinadores, uma tal MVA, Movimento Verde Amarelo, cantou em coro que “Copa do Mundo é guerra”. Uma gente que irá aos Estados Unidos cantar também que “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, torcedores profissionais.

Tudo sairia no xixi não fosse o fato de que é gente capaz de votar em candidato condecorador de miliciano na cadeia, comandante de rachadinha em gabinete de deputado e comprador de mansão na capital federal com dinheiro vivo – investimento que salário de senador não dá conta, nem renda de loja de lavagem de chocolate.

Filme de terror

Voltemos à década passada e deixemos claro, desde já, que todos têm o sagrado direito de detestar Lula, não votar nele em hipótese alguma e escolher o que considerar menos ruim, desde que não seja bandido, não apoie torturadores, nem queira fechar o Congresso Nacional ou o Supremo Tribunal Federal.

Lembremos o que aconteceu quando um juiz que fala “houveram fatos” e “conje”, mais tarde considerado parcial pelo STF, condenou Lula por ter comprado, sem ter comprado, um apartamento no Guarujá (não em Paris, Nova York ou Mônaco) e dois pedalinhos em Atibaia.

Sérgio Moro: sentença sem provas e tropeços na língua portuguesa (Foto: Pedro França/Agência Senado)

A sentença, sem provas, com indícios e convicções baseados em PowerPoint que desmoralizou a ferramenta no Brasil, acabou agravada no Tribunal Federal Regional-4.

O TFR-4 se baseou em sentença viciada por juíza que, simplesmente, fez “cópia e cola” da decisão do juiz parcial, que virou ministro da Justiça do presidente atualmente presidiário, que viria a ser eleito no lugar do candidato favorito sentenciado.

Parece filme de terror, e é.

Mas é mais, é também de gângster e não é filme, é série. Que continua com o filho 01 do ex-presidente preso por tentativa de golpe de Estado em busca de ser o próximo presidente do Brasil.

Para tanto, pede auxílio nos Estados Unidos e solapa a soberania nacional ao chamar para si a decisão de transformar a bandidagem de seus cúmplices em terrorismo.

Aí é que mora o perigo maior. Porque ainda há no Brasil doente quem o apoie. Não são poucos, não os subestime a rara leitora e o raro leitor.

Outubro se aproxima e haverá agora uma certa pausa para o ludopédio mundial virar notícia, roubar atenções. Mas a hora da verdade está próxima e precisa ser, senão a da cura, ao menos a da alta após quatro anos de recuperação da terra arrasada, da floresta queimada, dos direitos trabalhistas retirados.

Não bastou tirar, outra vez, do Brasil do mapa da fome.

Nem atingir o nível mais baixo já registrado do desemprego ou o mais alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – “muito alto desenvolvimento humano”–, segundo relatório da ONU, não do IBGE, que os desconfiados tenham clareza.

Alta, como se sabe, não é sinônimo de cura.

Uma nova categórica derrota da extrema direita bandida no país, no entanto, permitirá a consolidação da ameaçada democracia brasileira e o desestímulo às aventuras golpistas.

A direita que reveja métodos, desista de seus fascistas e adote táticas mais civilizadas daí por diante.

 

  • JUCA KFOURI (JORNALISTA)