Vídeos e áudios apresentados pelo Fantástico neste domingo (7), mostram conversas em que os policiais investigados no esquema que prendeu o delgado Braz Morroni, tratam o comércio ilegal como uma atividade empresarial.
Uma das gravações mais recentes mostra o investigador Everton Aires, conhecido como Bomba, resumindo a lógica que guiava o grupo.
“É jogo, meu filho, é jogo. Isso é negócio, isso não é pessoal, é negócio”.
Em outro registro, ele compara o tráfico a um negócio comum.
“É o mesmo que você estar vendendo qualquer outra coisa. Só que, em vez de você estar vendendo relógio, você está vendendo droga”.
A investigação apontou que, nos últimos cinco anos, Bomba recebeu mais de R$ 4 milhões em suas contas, valor incompatível com seu salário de cerca de R$ 8.500. A quantia teria sido obtida com a revenda de cocaína, crack e skunk apreendidos em operações policiais.
“Eu trago tanto hormônio como suplemento desde 2007. Os ‘anabols’ [anabolizantes] deixam para mim mais do que o meu salário do Estado. A polícia paga uma merreca”, afirmou Bomba em um dos áudios.
As declarações contrastam com o discurso que o investigador mantinha publicamente. “A gente tem que agir dentro da legalidade porque a gente não é milícia”, disse o investigador em um podcast.
Ele também afirmou que policiais conhecem em detalhes a rotina dos criminosos.
“A gente conhece os vagabundos, a mãe dos vagabundos, o irmão do vagabundo, a avó do vagabundo, onde ele morava, onde ele mora, conhece tudo”.
Quadrilha protegia foragidos, diz investigação
Everton Aires, o Bomba, não é o único investigado. Outros suspeitos são o investigador Eduardo Jorge, o Mão Branca, que chegou a ser homenageado na Assembleia Legislativa da Paraíba pelos “serviços prestados”, e o delegado Braz Morroni, o Braz.
A investigação começou em maio de 2025, após um traficante acusar policiais civis de roubarem uma carga de drogas.
A Polícia Civil concluiu que os entorpecentes retirados dos criminosos não eram encaminhados na totalidade para procedimentos legais, mas revendidos a outros traficantes.
Os três policiais negociavam com ao menos quatro criminosos e protegiam foragidos ao avisá-los de operações com antecedência.
Entre os beneficiados, estaria José Alexandrino Júnior Lira, conhecido como Júnior Lira e investigado por participação em ataques do chamado Novo Cangaço contra bancos e carros-fortes no Nordeste.
Em uma gravação, Lira afirma que contava com o apoio de um policial para vender entorpecentes. Em outra conversa, relata que recebeu oferta de ajuda para expandir as vendas até Mossoró (RN).