Foge totalmente à razoabilidade e inteligibilidade o cenário da disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Será posto à prova da população brasileira nesse pleito eleitoral de 2026, uma trajetória de quase 60 anos de serviços aos movimentos sociais, de luta contra a ditadura e de gestão pública, em comparação com um despreparado parlamentar que na ausência de predicados de moto próprio se apresenta como o arauto do pai inelegível e advogado das causas mais atrasadas do espectro político brasileiro.
É posta em causa nessa disputa a clarificação de uma espécie de dissonância cognitiva que faria corar o autor que denominou essa anomalia, o psicólogo social estadunidense Elliot Aronson, autor do célebre livro o Animal Social.
Não se trata aqui de demonizar o conservadorismo, já que esse segmento tem profundas raízes na formação social brasileira. Não à toa Lula, que produziu um crescimento de 7,5 % na economia do país, saiu do mandato em 2010 com mais de 80% de aprovação e com a rejeição de quase 20% dos brasileiros alocados neste setor da sociedade.
É óbvio, entretanto, que nem todo conservador é reacionário. Haja visto a imensa maioria dos brasileiros que identificam ser a democracia a melhor forma de governo para o país e que repudiam as tentativas de golpe para romper com o Estado Democrático de Direito. Vistas no 8 de Janeiro de 2023.
O Brasil construiu ao longo das décadas pós Constituição de 1988, um robusto arcabouço de políticas sociais estruturantes. Despontam o SUS, a universalização da educação, a ampliação do LOAS e a instituição do Bolsa Família. Ampliou-se a demarcação das terras indígenas e a aceleração da reforma agrária e dos assentamentos rurais. Edificou-se a maior construção de habitações populares e o financiamento de longo prazo para as classes médias.
Mesmo a vaga neoliberal que domina o mercado e parte da mídia empresarial não conseguiu destruir essas conquistas. Tentativas houve. E muitas. Basta lembrar os desgovernos Temer e Bolsonaro.
O risco que correm as conquistas sociais se desdobra para as pautas das mulheres, dos negros e negras e aos LGBTs. Posto que o machismo, o racismo e a lgbtfobia são parte do corolário da regressão reacionária representada pelo Bolsonarinho.
As redes sociais amplificam o trombone da extrema direita dado a simpatia das plataformas e a manipulação dos algoritmos.
A esquerda brasileira ciente da responsabilidade que é posta sobre os ombros, vai ter que aprender a se enfronhar nas redes digitais local onde diuturnamente se dá a disputa de narrativas. É claro que esse tipo de militância não substitui a necessidade de retomar as ruas. É só um polo a mais de interlocução política.
A própria mídia empresarial migrou para esse terreno. Isso é demonstrado pela redução significativa das edições em bancas.
O legado de realizações dos governos petistas é incomparável a qualquer fase da vida política brasileira. E é isso que está em jogo nesse ano. Ou mantemos as reformas que estão reconfigurando a sociedade brasileira. Ou, nos curvaremos à chegada do caos. Esse é o desafio.
* Alberto Cantalice (Diretor da Fundação Perseu Abramo)
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